Matéria veiculada na Folha Online no dia 27/09/2014

http://www1.folha.uol.com.br/folha/dimenstein/comunidade/gd270904a.htm

Quando Sara Muniz Ocanha, 18 anos, mãe de Gustavo de 1 ano e 8 meses, descobriu que estava grávida, achou que seu mundo havia desabado. Ela imaginava que não conseguiria cuidar da criança e, por isso, passou um bom tempo só chorando. Com o apoio da mãe, chegou ao Centro Assistencial Cruz de Malta, associação instalada na zona Sul de São Paulo, que desenvolve diversos projetos de atendimento à comunidade local, como as ações voltadas à saúde da mulher, com o acompanhamento durante o pré-natal das gestantes.

“Tinha tantos temores e aqui fui percebendo que podia lidar com tudo isso. Achava que todo mundo ia me julgar, porque era muito jovem, mas ninguém falou nada. E isso faz muita diferença. Tive um apoio que me deixou muito tranqüila”, conta a jovem. Na instituição, Sara pôde fazer todos os exames iniciais laboratoriais importantes na gravidez, alguns ultra-sons, além de ter o acompanhamento mensal do ginecologista. “Fui me dedicando ao máximo porque queria aprender para não falhar em nada. Cada vez que eu vinha na associação para fazer o ultra-som, junto com o meu namorado, minha mão ficava até gelada só de imaginar se o bebê tinha crescido ou não e como estava. Foi muito bom”.

Assim como Sara, mais de 70 gestantes são atendidas por semana na entidade para a realização do pré-natal. Em parceria com o Laboratório Fleury são realizados os exames, como o de urina e o de sangue, para a confirmação da gravidez, e o resultado é informado pessoalmente à mulher. “É raro elas ficarem contentes com o resultado positivo. No entanto, as mais jovens querem estar grávidas, seja por uma questão cultural, de educação ou para provar a sua sexualidade. Converso com cada uma para saber se estava utilizando algum método contraceptivo. Mas falta muita informação. A maioria não usa camisinha e quando toma anticoncepcional é totalmente errado”, comenta Marilza Trevisan Maioche, responsável pelo laboratório. A média é de 12 resultados positivos para cada 15 testes realizados.

A auxiliar de enfermagem Marlene Delliveneri, que há 20 anos realiza este trabalho na entidade, aponta que esta taxa é muito alta e que vem aumentando, principalmente, o número de garotas com menos de 20 anos grávidas. Normalmente, as jovens vêm acompanhadas das mães, que também já foram atendidas pela associação. “Muitas também chegam até nós porque tiveram problemas com outros postos de saúde ou já com a gravidez muito adiantada, sem pré-natal. Mas tentamos recuperar o tempo perdido. Aqui, elas se abrem e contam tudo o que estão passando e sentindo. Isso é bom pra elas e também cativa”, destaca a profissional.

Paula Rosenberg de Andrade, enfermeira pediatra do Centro, lembra ainda que a grande maioria das mulheres vem à instituição desorientada, preocupada e muito ansiosa. E, por isso, a necessidade de um apoio o quanto antes. Ela afirma que o acolhimento da instituição chama a atenção da comunidade, pois, em sua opinião, muitos profissionais de saúde em outros locais estão mais preocupados em julgar a atitude destas mulheres, principalmente as mais jovens, ao invés de ajudar. “O interessante é que raramente estas meninas se arrependem da gravidez porque elas resgatam vivências da infância, e de como foram criadas”, comenta a enfermeira. Sara garante que realmente, apesar das dificuldades, não dá para se arrepender. “Eu olho para o Gustavo e penso: como posso me arrepender disso? Claro que podia ter adiado um pouco”.

Após os exames iniciais, as futuras mamães são encaminhadas para os especialistas da associação. O trabalho é realizado por quase 100 voluntários, como médicos, enfermeiros, psicólogos e nutricionistas, de universidades de São Paulo – como a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e a Universidade São Camilo, entre outras – que se revezam no atendimento. Durante o pré-natal, elas recebem todas as orientações necessárias, sempre acompanhadas pelo mesmo médico e podem fazer a ultra-sonografia. A associação é um dos únicos locais da região que oferece este exame.

Maria da Graça Mendonça, 40 anos, mãe de quatro filhos e grávida de 3 meses, já fez o pré-natal de dois filhos na Cruz de Malta e agora terá o acompanhamento do mesmo ginecologista para o seu bebê. Ela acredita que isso traz maior confiança e favorece a relação entre paciente e médico, devido a um histórico. “Aqui posso tirar minhas dúvidas. É muito importante saber o que está acontecendo com a gente e com a criança”.

As mulheres participam ainda de palestras com diversos temas. O enfoque das atividades é diferente a cada trimestre de gestação. Nos primeiros três meses, a proposta é mostrar todos os cuidados que a mulher deve ter com o seu corpo, quais as transformações que ele sofre e a importância do aleitamento materno. A partir daí, o foco maior é no bebê, como os cuidados necessários para a sua chegada. “Isso porque é nesta fase que a mulher realmente começa a se dar conta de que vai ser mãe. Enfatizamos muito também a questão da amamentação exclusiva até os seis meses, essencial às crianças”, comenta Paula.

As gestantes têm ainda à disposição atendimento psicológico, dentista e o serviço social. A assistente social Ornilda Gago explica que o departamento atua como uma ponte entre os outros atendimentos e procura dar todo o suporte necessário às gestantes, como doação do enxoval do bebê, além do encaminhamento para os hospitais e postos de saúde que fazem um trabalho mais amplo de planejamento familiar. Na instituição, há uma farmácia com amostras grátis de remédios, doados por indústrias farmacêuticas parceiras.

As futuras mamães recebem a orientação necessária também para o momento de se dirigirem ao hospital para terem seus bebês. A recomendação é que optem pelo parto normal e procurem hospitais que tenham a preocupação com o parto humanizado, como o Hospital Amparo Maternal, onde 90% das gestantes da associação são atendidas. “Procuramos mostrar os benefícios que este parto traz para a mulher e também para o bebê. Ela volta a ter uma vida normal muito mais rápido. Normalmente, as mulheres só optam pela cesárea porque têm medo”, comenta Paula.

Na opinião de Marlene Rodrigues Barbosa, 37 anos, mãe de três filhos e grávida de 7 meses, ter a carteirinha do pré-natal com todos os exames já realizados facilita muito no momento do parto. “Sem isso, fica muito difícil explicar como eu ou o meu nenê estamos. Imagina se tivesse diabetes ou pressão alta e não fosse identificado por falta desse acompanhamento? Assim é mais tranqüilo”, conta Marlene, que já teve duas gestações acompanhadas pela associação.

Mesmo após o parto, as novas mamães continuam sendo atendidas na entidade, assim como seus bebês. Até os 3 anos de idade, as crianças são acompanhadas pelas enfermeiras, que dão todas as orientações necessárias quanto à higiene, amamentação, e fazem a pesagem e a vacinação. Segundo a enfermeira Paula, neste momento, a instituição passa a trabalhar com a família, para que todos estejam bem e possam cuidar do bebê. Após este período, as crianças são encaminhadas para os pediatras da instituição.

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